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Um texto de Camilo Castelo Branco acerca de António Luís Ferreira
Girão (1823-1876)
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Era ele segundo-sargento e aluno de Ciências Militares
quando nos encontrámos, em 1844, glosando motes em um abadessado no Porto.
Ele e eu puséramos as nossas melhores décimas à disposição inteligente
das criadas do mosteiro, às quais os nossos émulos em Apolo, com aristocrático
desdém, chamavam «tachos». Estas criadas entendiam-se connosco sobre
assuntos métricos, num beco para onde talvez davam as grades da cozinha.
Enquanto as velhas filhas de Santa Clara gosmavam motes heróicos para
sonetos a Xavier Pacheco, a Nogueira Gandra e a Ferreira Rangel, Girão e
eu, no quinchoso escuro e pedregoso, recebíamos colcheias cantadas em vozes
frescas, e com os motes uns vinhos velhos, e os conhecidos pastéis da
santa. Verdade é que nós também, nas nossas glosas, não revelámos ideia
que não fosse um amor honesto acompanhado do peditório de vinho e pastéis.
E elas, liberalizando à sede e à gula o que não podiam satisfazer à
ternura, delapidavam a garrafeira das amas, descendo em cestinhos as musas
liquidas que nós lhes devolvíamos cristalizadas em redondilhas, vazias de
conceito como as garrafas.
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Foi António Girão o rapaz mais engraçado do seu tempo;
e já quando envelhecia, os juvenis sensaborões da geração nova
macaqueavam-lhe os gestos para armarem ao riso, se contavam alguma safada
anedota. Houve tempo em que os sócios do Clube Portuense falavam quase
todos com os trejeitos de Girão. Eram detestáveis até provocarem na gente
o carniceiro apetite de os apunhalar.
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A graça de Girão não era a das anedotas: era a sua.
Quando engatilhava os beiços para disparar o chiste, já o auditório, para
se rir, o dispensava de rematar o conto.
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Evaristo Basto, primeiro folhetinista do seu tempo, Girão,
o actual visconde de Benalcanfor e eu tínhamos dias assinalados, há vinte
e quatro anos, de jantar no Reimão, na taberna de um maneta que levou deste
mundo o segredo da boa pescada com cebolas. Eram uns jantares que eu
chamaria girândolas de espírito, se não fossem também de linguados
fritos. Se, quando, depois, os quatro entravamos no Café Guichard, entrasse
Garrett connosco, ele, conforme à sua teoria de ajuizar das terras pelos
botequins, diria: «Estou em Paris.»
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Até dos Brasileiros gordos extraiamos ditos finos, se de
mexilhões se pudessem tirar pérolas.
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Esta vida assim não podia durar. Girão tinha grande
aptidão científica, ambições grandes de saber e de nenhuns bens da
fortuna. Foi deputado e professor. Estudou muito e de afogadilho, com
justificado aproveitamento. Afadigou-se para recuperar os desperdícios dos
anos académicos, vividos na descuidada alegria daquela inteligente e doida
Coimbra de Ricardo Guimarães, de Santos Silva, de Carlos Ramires Coutinho e
Silva Gaio. Era ainda assim estudante notável, fazia as maravilhas do
talento; mas parecia tratar as ciências naturais como os fidalgos da sua raça,
doutores em agricultura que têm de olho os progressos da terra pela
beterraba, e pedem conselho aos seus caseiros para plantarem couves
lombardas. Escreveu livros de ciência, folhetos humoristas, poemetos sãos
da graça antiga remoçada nas parvulezas contemporâneas.
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Eu raras vezes o vi no lapso de doze anos; quando, porém,
nos encontrávamos, dizíamos palavras tristes. Era a saudade: tínhamos
vivido.
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Eu soube um dia que António Girão chegara enfermo a uma
hospedaria perto desta aldeia. Fui vê-lo. A minha presença afligiu-o.
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– Estou moribundo – disse ele.
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Ofereceu-me gelo com que refrigerava os beiços
carbonizados. Disse-me com a voz já presa que se estava vendo e sentindo
morrer; que assistia à dissolução da vida como se visse em si uma retorta
num laboratório. E concluiu:
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– Tomara eu isto acabado!
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Expirou no dia seguinte, 2 de Agosto de 1876, na
hospedaria de Vila Nova de Famalicão.
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Dizem-me que até ao fim discutira com o médico, com o
amigo extremoso que lhe assistira, com o irmão que o adorava e consigo
mesmo os transes angustiosos que se deram naquela horrente batalha entre a
vida e a destruição. Teve o trespasse dum justo e dum sábio. Como epílogo
amargo de trinta anos de incansável estudo, nos seus três últimos dias
observava o processo da morte, e rejeitava esperanças e lástimas banais.
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Camilo
Castelo Branco
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