Família Príncipe
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Igreja de Sandim                                       Introdução

Apesar do nome “Príncipe” ser muito pouco frequente em Portugal, existem pelo menos três famílias que o usam, não sendo possível estabelecer entre elas qualquer ligação. Este estudo refere-se apenas aos Príncipe de Sandim, uma freguesia do concelho de Vila Nova de Gaia. Aí, em meados do século XIX, o nome foi adoptado por alguns membros de uma família que até aí usava o apelido Silva. A maior parte dos seus descendentes habita ainda hoje na região do Grande Porto, se bem que exista também um numeroso ramo no Brasil.

(Nota: salvo indicação em contrário, todos os lugares referidos neste texto pertencem à freguesia de Sandim.)

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1.  -  Os três casamentos de Maria Fernandes Alves

O lugar de Sá 

        1.1.  -  O primeiro casamento

            António José da Silva nasceu a 20-6-1758 no lugar de Sá, sendo filho de Manuel André da Silva  (do mesmo lugar), e de Apolónia Tavares (de Gende). 

            A 4 de Agosto de 1780, António José da Silva casou com Maria Fernandes Alves. Ela nasceu também em Sá, no mesmo ano do marido, a 19-5-1758, sendo filha de José Alves (de Mourilhe), e de Maria Fernandes (de Sá). 

            Este casamento foi de curta duração (pouco mais de 2 anos), pois António José da Silva, com 24 anos, faleceu a 25-10-1782. No ano anterior, a 31-7-1781, tinha nascido o único filho do casal, Manuel José da Silva, cujos filhos irão ser os primeiros a usar o apelido Príncipe, como veremos.

 

        1.2.  -  O segundo casamento

Dois anos após ter enviuvado, Maria Fernandes Alves voltou a casar (a 30 de Julho de 1784),  agora com Luís Lopes Alves, nascido no lugar da Candieira a 6-5-1765, filho de Manuel Lopes (da Candieira) e de Rosa Alves (de Vila Meã).

            Este casamento foi de duração ainda mais curta do que a do anterior, pois Luís faleceu a 20-9-1785, com apenas 20 anos de idade. Deste casamento resultou também um filho, José, nascido a 23-5-1785, que terá falecido criança.

 

        1.3.  -  O terceiro casamento

            Três anos depois da morte de Luís, a 10 de Novembro de 1788, tendo pouco mais de 30 anos de idade, Maria Fernandes Alves casa-se pela terceira vez, e de novo com um António José da Silva. É um nome idêntico ao do primeiro marido, mas não se trata de uma mera coincidência. Este segundo António deveria normalmente chamar-se António Gonçalves ou mesmo António Lourenço, pois era filho de Matias Gonçalves e de Maria Lourenço, mas decidiu antes usar o apelido daquele que tinha sido o primeiro dono da casa. Nesse tempo, isso era perfeitamente possível, já que o único nome "oficial" era o primeiro nome, o do baptismo, sendo os outros nomes e os restantes apelidos usados ao longo da vida conforme a vontade de cada um.

            António era natural do Murujal (na freguesia de Urrô, concelho de Arouca), uma pequeníssima aldeia da Serra da Freita, onde nascera a 21-2-1767. Certamente à procura de uma vida diferente da dos seus pais, ele abandonou a aldeia, por onde passava nessa altura a estrada Viseu-Porto, talvez tencionando dirigir-se a esta segunda cidade. A verdade é que ficou em Sá, que também fica adjacente à referida antiga estrada para o Porto.  

            Ao contrário dos dois anteriores, este casamento irá durar muito tempo, quase 38 anos, dele resultando 5 filhos: António José da Silva Júnior (nasceu a 22-5-1789), Quitéria da Silva (n. 23-5-1791), Joaquim (n. 4-3-1794), Maria  (n. 21-10-1796), e Sebastião Fernandes da Silva (n. 27-8-1799).  

            Destes 5, interessa-nos especialmente o primeiro, pois o seu filho também irá usar o nome Príncipe.

 

 

2.  -  Os filhos de Maria Fernandes Alves

            Conforme acabámos de ver, Maria Fernandes Alves casou 3 vezes. Vejamos o que sucedeu aos dois filhos que mais nos interessam. São eles: Manuel José da Silva (filho do 1º marido), e António José da Silva Júnior (filho do 3º marido), que são portanto meios-irmãos.

   

      2.1.  -  Manuel José da Silva

                Manuel José da Silva nasceu em Sá a 31-7-1781. A 2 de Março de 1802 casou -se com Maria Francisca do Couto, natural do lugar do Cabo, onde tinha nascido a 23-8-1777, filha de José do Couto e de Rosa Francisca. Ficaram a viver no lugar do Cabo e, dos 8 filhos do casal, dois deles tornaram-se conhecidos pelo nome "Príncipe". Vejamos porquê:

                Joaquim, nascido a 12-8-1806, e António, nascido a 18-5-1808, emigraram para o Brasil por volta de 1830. De acordo com os relatos familiares que chegaram até nós, esses dois irmãos desenvolveram um negócio de comércio de café, prosperando de tal forma que em meados do século XIX possuíam um barco cargueiro para o transporte do café. Ainda segundo a tradição familiar, os dois irmãos passaram a ser conhecidos pelo cognome "do Príncipe" precisamente por ser "Príncipe" o nome desse barco.

                O certo é que em 1869, tendo regressado do Brasil, onde casara com uma brasileira com quem vivia agora em Sandim, Joaquim assina Joaquim do Príncipe Silva no baptizado de uma criança. Do mesmo modo, num outro baptizado, em 1872, o seu irmão António é nomeado António do Príncipe Silva, mas aí se regista que mora ainda no Rio de Janeiro. 

Joaquim do Príncipe Silva 

       2.2.  -  António José da Silva Júnior

                António José da Silva Júnior nasceu em Sá a 22-5-1789. Casou a 10-10-1830 com Ana Joaquina da Encarnação, nascida no lugar da Costa a 21-4-1808, filha de João José de Sá (de Gende) e de Maria Rosa da Encarnação (da Costa). 

                Tiveram um filho, Manuel, nascido em Sá a 18-5-1834, e que no assento do seu casamento, a 16-7-1868, já assina o registo de casamento como Manuel Alves do Príncipe Silva, certamente por influência dos seus primos Joaquim e António, vindos do Brasil.  Manuel casou-se com Rita Maria Baptista de Jesus, nascida a 25-2-1841 no lugar de S. Miguel da freguesia de Lobão (concelho da Feira), filha de Manuel Caetano e de Maria Rosa da Mota, ambos de Lobão.

                Quando Manuel baptiza o seu único filho varão, Joaquim,  nascido a 30-5-1869 (e que viria a chamar-se Joaquim Alves do Príncipe Silva), o padrinho escolhido é precisamente o primo, Joaquim do Príncipe Silva, casado no Rio de Janeiro mas a viver em Sandim. 

                Da mesma forma, quando em 24-1-1872 nasce a filha seguinte, Bernardina (que viria a ser religiosa no Convento do Lobão) o padrinho é o outro primo, António do Príncipe Silva.

                Fica a partir daí estabelecido em toda a família o uso do apelido Príncipe.

   

 

3.  -  Os descendentes de Joaquim Alves do Príncipe Silva

          

Como vimos no parágrafo anterior, Joaquim Alves do Príncipe Silva nasceu em Sá a 30-5-1869. A 8 de Julho de 1894, com 25 anos, casou na Igreja de Sanguedo (Feira) com Adelaide Malgrand, de 16 anos. Adelaide nascera no Rio de Janeiro a 7-12-1877, filha de dois franceses que tinham emigrado para o Brasil. Vejamos um pouco da sua história.

O pai de Adelaide era François-Xavier Malgrand, nascido a 31-7-1841 em Mieussy (aldeia francesa da Alta Sabóia, no sopé do Monte Branco, perto da fronteira suíça), filho de Gervais Malgrand e de Marie Bertrand. Consta que François-Xavier era soldado-lanceiro da Casa Real da Sabóia, que então era ainda um reino independente.

Mieussy no início do século XX (ao fundo, o Monte Branco)

            Em 1860, o Rei da Sabóia e futuro Rei da Itália, Vítor Emanuel, tinha estendido a sua influência mais para sul, mas acabaria por perder o território original da Sabóia para os franceses. Em consequência, muitos naturais da Sabóia emigraram para o Brasil, fugindo ao domínio francês. Assim acabou por fazer também François-Xavier, que entretanto casara com Céline-Marie Boucniaux, nascida a 12-6-1846 na aldeia de Anor (perto de Avesnes-sur-Helpe, uma pequena cidade do Norte da França, junto à fronteira belga), filha de Eugène Boucniaux e de Victoire Jacquot. 

            Chegados ao Brasil, François-Xavier e Céline tornaram-se donos de uma fábrica de produtos alimentares. François-Xavier morreu no Rio de Janeiro por volta de 1880, e a viúva, Céline, casou-se então com Joaquim Alves Ribeiro, um português natural de Sanguedo, no concelho da Feira, e que era o gerente da referida fábrica. 

            Esta nova família (Joaquim Alves Ribeiro, Céline Boucniaux, e a única filha de Céline, Adelaide Malgrand) deixou o Rio de Janeiro e veio instalar-se no lugar do Arraial dessa freguesia de Sanguedo por volta de 1890. Isso viria a proporcionar o encontro entre Adelaide Malgrand e Joaquim Alves do Príncipe Silva, uma vez que os lugares de Sá e do Arraial são limítrofes, se bem que de freguesias, concelhos e mesmo de distritos diferentes.

Aspecto actual da casa de Joaquim Alves Ribeiro e de Céline Boucniaux (lugar do Arraial, Sanguedo)

            Entre 1895 e 1917, Joaquim e Adelaide tiveram 10 filhos. Adelaide Malgrand faleceu em Sá a 10-10-1918, tendo apenas 40 anos. Joaquim Alves do Príncipe Silva viveu até aos 92 anos, e faleceu no mesmo lugar a 19-10-1961.

            Todos os filhos desse casal usaram "Príncipe" como último apelido. Talvez por se tratar de um nome invulgar e carismático, tornou-se no elemento identificativo mais forte para a maior parte dos seus descendentes.

            A geração que tem nascido desde 1975 são já os trinetos de Joaquim Alves do Príncipe Silva e de Adelaide Malgrand. Apesar da tradição que vigora em Portugal nos últimos 100 anos levar normalmente ao progressivo desaparecimento dos apelidos herdados por via materna, tal não se tem verificado neste caso. De facto, todos os 35 netos, 61 dos 65 bisnetos e 21 dos 22 trinetos daquele casal têm "Príncipe" como um dos seus apelidos.

 

 (Fim deste texto)

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